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Cabral pediu intervenção de Bacellar para adiar julgamento de improbidade com devolução de R$ 64 milhões
19/03/2026
(Foto: Reprodução) Cabral pediu intervenção de Bacellar para adiar julgamento de improbidade
A GloboNews descobriu a que processo o ex-governador do Rio Sérgio Cabral se referiu ao pedir ajuda ao então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar.
Trata-se de uma ação de improbidade administrativa que teve como base as investigações da Operação Lava Jato — e na qual Cabral e o empresário Eike Batista foram condenados a devolver R$ 64,2 milhões cada um aos cofres do RJ.
Na época das mensagens de Cabral a Bacellar, o recurso do processo ia para a 2ª instância. Segundo a Polícia Federal (PF), o ex-governador procurou o deputado para tirá-lo de pauta.
A ação foi adiada, mas acabou seguindo, e no início deste mês outro recurso foi negado, mantendo a condenação.
Sérgio Cabral
Reprodução
Como tudo começou
A ação de improbidade administrativa foi ajuizada pelo Estado do Rio contra os investigados na Operação Eficiência da PF, um desdobramento da Lava Jato no RJ que apurou um esquema de pagamento de propinas do empresário Eike Batista ao então governador Sérgio Cabral.
Segundo as investigações da Lava Jato, em 2011 Cabral recebeu de Eike Batista 16,5 milhões de dólares em propina no exterior, através de contrato fictício de “aconselhamento e assistência” entre empresas offshore.
Já em 2013, o então governador recebeu mais R$ 1 milhão em propina de Eike, através de contrato fictício de serviços advocatícios das empresas de Eike com o escritório da advogada Adriana Ancelmo, que na época era casada com Cabral.
Rodrigo Bacellar
Reprodução/TV Globo
Dez anos depois
Em setembro de 2023, Cabral, Adriana Ancelmo, Eike Batista e outros réus foram condenados por improbidade administrativa em 1ª instância.
Cabral e Eike foram condenados à perda dos bens no valor de R$ 64,2 milhões cada, ao pagamento de multa civil no mesmo valor e à suspensão dos direitos políticos por 10 anos. Já Adriana Ancelmo teve as mesmas penas, mas a perda de bens e o pagamento de multa foram de R$ 1 milhão.
Os réus recorreram ao Tribunal de Justiça. Em 12 de maio do ano passado, o processo foi incluído na pauta da 6ª Câmara de Direito Público para julgamento presencial no dia 27 daquele mês.
O “pedido de socorro” é dessa época. Em 16 de maio, 4 dias depois da marcação da data para julgamento do processo, Cabral, de acordo com a Polícia Federal, mandou as mensagens a Bacellar.
Segundo o relatório da PF que indiciou Bacellar por vazamento de informações sigilosas para o Comando Vermelho, Cabral pediu ao parlamentar que intercedesse no processo.
Cabral: “Amigo, na segunda-feira você pode dar 10 minutos de atenção para a Dra. Patrícia Proetti, minha advogada, para te dar um briefing da minha situação de improbidade na 6ª Câmara de Direito Público? Pode ser aqui como pode ser na sua casa, como pode ser no escritório dela, que é na São José. Eu estarei junto. Muito importante para mim.”
No dia 22 de maio, Cabral voltou a falar com Bacellar para adiar o julgamento do processo.
Cabral: “Não esquece do meu julgamento na 6ª Câmara. Desculpe te perturbar com isso. Mas será terça. Só pedir para retirar de pauta”.
Bacellar: “Estou tentando desde ontem. Te falo.”
No dia 26 de maio, na véspera do julgamento, a desembargadora Lídia Maria Sodré de Moraes, relatora do caso, retirou o processo de pauta.
“Por vislumbrar no processo, questões que demandam, ainda, uma maior cognição, determino a retirada do feito da pauta presencial do dia 27 de maio”, escreveu a magistrada.
Segundo o relatório da PF, “a véspera do julgamento é marcada pelo desespero e apreensão de Sérgio Cabral que, ao se deparar com a informação, no dia 27, de que o processo tinha sido retirado de pauta, se exalta no agradecimento e diz que ama Bacellar em razão do atendimento de sua demanda”.
Cabral: “Irmão! Saiu de pauta o meu processo. Você é um querido. Te amo, amigo!!!”
Bacellar responde com uma figurinha.
O empresário Eike Batista em seu escritório no Rio de Janeiro, em 31 de março de 2025
REUTERS/Ricardo Moraes
Mas a condenação foi mantida
A comemoração de Cabral, no entanto, não mudou o desfecho do processo. Em 7 de outubro do ano passado, 6 meses depois, a ação de improbidade foi julgada, e a 6ª Câmara de Direito Público manteve a condenação do ex-governador, de Eike, de Adriana e dos outros réus.
A única mudança que os desembargadores fizeram na pena determinada na 1ª instância foi a exclusão do pagamento de multa civil — mas a devolução dos R$ 64 milhões permaneceu.
Algumas defesas recorreram e, em 3 de março deste ano, a 6ª Câmara de Direito Público negou os embargos de declaração.
O que dizem os envolvidos
Em nota, a desembargadora Lídia Maria Sodré de Moraes informou que não recebeu nenhum pedido para retirar o processo de pauta.
Os advogados de Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo declararam que o processo foi julgado e que ambos foram condenados. Afirmou ainda que está recorrendo da decisão.
A defesa de Eike Batista disse que não vai se pronunciar.
Rodrigo Bacellar foi procurado, mas não se manifestou.
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